200x100cm Díptico – Acrílica.
Infelizmente, há uma via de interpretação diabólica do Salmo 91, frequentemente explorada. Essa leitura afirma que aquele que crê estará totalmente revestido de poder sobre-humano contra qualquer contrariedade. O maior exemplo disso é o próprio diabo tentando a Cristo no deserto, usando exatamente esse texto. (Lc 4. 1-13).
Uma vez que a morte é sempre considerada o sinônimo do mal, à luz do profeta Isaías 57.1, onde se lê que “os justos são tirados para serem poupados do mal”, Caio Fábio comenta o Salmo 91 dizendo: “Morrer é tudo, menos mal. O grande mal não é morrer e nem como se morre e sim, o modo como se vive – isso é o que mata eternamente. Morrer não mata ninguém e nunca matou. O que mata é o modo de viver, é o modo de existir.”
Ele continua: “O Salmo 91 não promete imunidade mágica contra dor ou tempestades. Não é um seguro que nos livra das crises. O que ele oferece é uma presença que sustenta no meio do sofrimento — não a negação da dor, mas a certeza de companhia e amparo quando as ondas chegam.”
Em seu famoso “Sermão da Sexagésima” Padre Antônio Vieira (1645) diz:
“As palavras de Deus pregadas no sentido em que nós queremos, não são palavras de Deus, antes podem ser palavras do Demônio (…) As mesmas palavras que, tomadas no sentido em que Deus as disse, são defesa, tomadas no sentido em que Deus não disse, são tentação.”
Na pintura, a menina em oração, envolta por asas, representa essa entrega interior — o coração que descansa, mesmo sem controlar o que está lá fora. As asas não são um escudo contra o sofrimento, mas o sinal de uma presença que ampara e sustenta. O barco em meio à tempestade simboliza a travessia da vida: vulnerável, exposta, mas guiada por algo maior.